LUISLINDA
VALOIS A primeira juíza negra brasileira, primeira a proferir uma sentença de
racismo no Brasil e a primeira Desembargadora negra do Brasil.
Luislinda
Dias de Valois Santos, nasceu em Salvador na Bahia. Filha de uma lavadeira, e
de um motorneiro de bonde e neta de um escravizado. Teve uma infância pobre, e
com a morte precoce de sua mãe, enfrentou a juventude a ajudar a cuidar dos
irmãos, o que a obrigaria a se formar advogada somente aos 39 anos de idade.
Aos 9
anos de idade, estudava o ensino primário no Colégio Duque de Caxias, no bairro
da Liberdade. Foi lá que ouviu a sentença de um professor, irritado por causa
de seu pobre material escolar: "Se não pode comprar é melhor parar de
estudar e ir cozinhar feijoada na casa de brancos!”. Humilhada, ainda se
emociona quando relembra, tomou ali uma decisão, e retrucou: “Vou é ser juíza e
lhe prender”.
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"O direito a discutir o racismo é apenas do negro" (Luislinda Valois)
A primeira parte, ela cumpriu. Em 1984, a baiana Luislinda Valois Santos
tornou-se a primeira juiza negra do Brasil, passou em 1º lugar em nível nacional.
Não à toa, também foi quem proferiu a primeira sentença contra racismo no
Brasil. Em 28 de setembro de 1993, condenou o supermercado Olhe Preço a
indenizar a empregada doméstica Aíla de Jesus, acusada injustamente de furto.
Aos 67 anos, lança em 2009 seu primeiro livro; 'O Negro no Século XXI'.
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"É sempre o negro o delinquente," (Luislinda Valois)
O livro
é mais que um protesto, em cada parte, a autora pontua, de forma simples e
direta, o processo histórico causador da desigualdade social e racial em nosso
país. Dividido em 18 capítulos, a obra é um avocar para uma reflexão sobre o
retorno que a sociedade tem dado ao povo negro, em vista de sua contribuição
social, econômica e cultural, ao longo dos séculos. “Cada negro letrado no
Brasil tem a obrigação de sistematizar as suas próprias lembranças. A
experiência de cada um é um trecho da realidade vivida” (Ubiratan).
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"Parece que somos iguais , mas só somos iguais na constituição brasileira
e nas constituições estaduais . Mas no dia -a-dia , nos cargos e nas
oportunidades não somos iguais a ninguém, só somos iguais aos leigos, única e
exclusivamente" (Luislinda Valois)
Apesar
de juíza e escritora, Luislinda não foi poupada de sofrer racismos em sua vida,
o que só comprova que o racismo no Brasil é racial, independente de sua classe
social . Chegou a ser proibida de entrar em uma festa em sua própria homenagem
onde aguardavam uma francesa branca e não uma negra com trançado nos cabelos.
Ao
participar de um quadro final da novela 'Viver a Vida '(Globo), publicam em
jornal a sua foto com a atriz Natália do Vale, onde se lê: "Natália do
Vale faz carinho em sua camareira". Ainda esperou por décadas para ser
promovida a Desembargadora na Bahia e ainda assim, através de decreto. Ela
sempre protestou por nunca ter chegado a Desembargadora "No judiciário a
porta não é nem fechada, ela é lacrada. Eu, por algum motivo tive condições de
chegar, mas percebo que existe uma certa rejeição, não à minha pessoa, mas ao
problema do negro", disse ela.
Luislinda
Valois é também idealizadora dos Balcões de Justiça e Cidadania, do Juizado
Itinerante Marítimo Baia de Todos os Santos e da Justiça Bairro a Bairro,
criados com objetivo de facilitar o acesso da população carente aos serviços
judiciários.