Desde julho, 13 trabalhadores
do Haiti denunciaram espancamentos sofridos dentro de empresas em que
trabalhavam, em Curitiba
Publicado em 20/10/2014 | FELIPPE
ANÍBAL – vIA Gazeta do povo
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O tórax do haitiano Maurice*,
de 26 anos, ainda dói quando faz movimentos bruscos. Há pouco mais de um mês,
ele foi espancado até perder os sentidos, por dois colegas de trabalho. As
agressões ocorreram dentro da cerealista da qual eram empregados. O rapaz foi
surrado depois de pedir que parassem de lhe ofender por sua cor e condição de
migrante. Além de, por mais de um mês, ter sido chamado diariamente de
“escravo” e de “macaco”, aguentava colegas que lhe atiravam bananas, como
forma de ofendê-lo. Mais do que os ferimentos físicos, é a dor do preconceito
que incomoda o haitiano.
“Eu falava pra eles: ‘Você é
meu irmão. Sou humano igual a você, criado pelo mesmo Deus’. Mas me bateram,
bateram e ninguém separou”, disse o migrante. “Eu não entendo porque isso, se
sou gente como eles”, lamenta.
Na rua
Vítima apanhou e foi demitida por justa causa
Os ferimentos que sofreu –
constatados por seis laudos médicos – afastaram Maurice* do trabalho por
cinco dias. Quando retornou à cerealista, teve uma surpresa: foi demitido por
justa causa. Os dois agressores também foram dispensados pelo empregador.
Hoje, o haitiano procura um novo posto de trabalho. Maurice – que divide uma
casa de dois quartos com outros 14 migrantes –, preocupa-se com a possibilidade
de não conseguir pagar as contas.
Na ação trabalhista, os
advogados pedem à Justiça que a demissão seja revertida para sem justa causa.
Com isso, o haitiano teria direito a verbas trabalhistas rescisórias. Na
esfera criminal, o patrão e os agressores devem ser responsabilizados.
Paralelamente, os defensores do rapaz vão pedir indenização por dano moral,
em decorrência do sofrimento a que a vítima foi submetida.
“Ele foi jogado ao chão,
recebeu inúmeros pontapés na cabeça e nas costas, teve o dedo cortado com um
objeto contundente e, ao invés de protegê-lo, [o patrão] o demitiu”, diz o
advogado criminalista Bernardo Pinhón Bechtlufft.
Os crimes
Injúria racial é definida pelo
artigo 140 do Código Penal. Caracteriza-se quando a vítima é ofendida em sua
dignidade em razão da raça, cor, etnia, religião ou origem. A pena pode
variar de um a três anos de prisão e multa. Já o crime de racismo é definido
pela Lei Federal 7.716 e envolve a ofensa a um direito fundamental da vítima
(por exemplo, quando ela é impedida de entrar em um local ou não recebe
atendimento por causa de sua cor, etnia ou origem). A pena varia de um a
cinco anos.
Condenações
Na última semana, o Tribunal
Regional do Trabalho do Paraná (TRT-PR) divulgou que duas empresas – uma
distribuidora de bebidas de Curitiba e um hotel de São José dos Pinhais –
foram condenadas por não terem contido discriminações raciais ocorridas em
suas respectivas dependências. Ambos os casos envolvem trabalhadores
brasileiros negros. O hotel foi condenado a indenizar em R$ 100 mil uma
cozinheira, que era chamada de “preta, gorda e de cabelo ruim” pela
supervisora. Esta também dizia que a funcionária tinha “que fazer serviço de
branco para ficar bem”. Já a distribuidora terá de pagar R$ 20 mil a um
auxiliar de entrega que foi chamado de “macaco” por um colega. Ele levou o
caso aos superiores, que nada fizeram a respeito. Das duas decisões, cabe
recurso.
Antes velada, a xenofobia em
Curitiba parece ter ultrapassado os limites da injúria e do racismo. Se antes
o ódio se manifestava em olhares, em xingamentos e em algumas reações mais
contidas, agora alguns casos passaram a se cristalizar em atos violentos.
Desde julho, a Casa Latino
Americana (Casla), organização que acolhe migrantes na capital paranaense,
recebeu 13 haitianos que foram espancados por causa do preconceito.
Assim como Maurice, os relatos
detalham atitudes que escancaram a discriminação e que terminaram com
agressões físicas graves. As vítimas estão recebendo assessoria jurídica da
Casla, com apoio da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), por meio da Comissão
de Direitos dos Migrantes.
“Todos estes casos ocorreram
por preconceito e xenofobia. As vítimas foram agredidas por serem haitianas.
Estamos assustados, porque estes são apenas os casos que nos chegam. Muitos
devem ficar ocultos”, diz a advogada Nádia Pacher Floriani, presidente da comissão
da OAB. “Às vezes, temos que nos segurar para as lágrimas não rolarem diante
das histórias”, conta.
No trabalho
As agressões recentes reúnem
uma característica em comum: foram cometidas dentro de empresas em que os
haitianos trabalhavam. Por precisarem do emprego, muitas das vítimas acabam
suportando as humilhações e as agressões, silenciando diante do preconceito.
“Ao mesmo tempo em que essas aberrações acontecem, muitos são obrigados a
permanecer no trabalho para garantir seu sustento. É xenofobia. É um problema
cultural de não aceitar o outro”, define o advogado trabalhista Adriano
Falvo, que presta assessoria jurídica voluntária às vítimas.
As
ocorrências extrapolam a esfera trabalhista e têm gerado, também, ações
criminais. Um dos homens que espancou Maurice chegou a se preso poucas horas
depois, por crime de racismo. Posteriormente, no entanto, foi solto, porque
as autoridades consideraram que o ato se enquadrava em injúria racial. Mesmo
diante do patrão, ele teria mantido as ofensas. “Ele disse ao chefe que tinha
me batido porque não gostava de preto e de haitianos. Eu fico muito triste
com isso”, desabafa Maurice.
* Os nomes das vítimas e das empresas foram omitidos, porque os casos correm
na Justiça sob sigilo.
Proibido de trabalhar após casos suspeitos de ebola
A suspeita recente de ebola no
Paraná parece ter colocado em ebulição o preconceito e a xenofobia contra
migrantes negros, mesmo aqueles que não vêm da zona de maior risco para a
doença, ainda circunscrita a países da África. Na última semana, um imigrante
do Haiti I (país da América Central), contratado de uma empresa terceirizada
que presta serviços a uma construtora, foi impedido de entrar na obra em que
trabalhava. “Ele foi barrado na portaria, por um funcionário que disse: ‘Você
é haitiano, negro e vai trazer doenças. Aqui você não trabalha’. Ele não pôde
sequer pegar suas coisas, que ficavam num armário da obra”, disse o advogado
Adriano Falvo.
Na última segunda-feira, a
Gazeta do Povo mostrou que, após a suspeita de um guineano ter sido
contaminado com o vírus do ebola em Cascavel, parte da população local se
voltou contra os migrantes negros. “Apesar de o Haiti ficar a milhares de
quilômetros da Guiné, depois desse caso a xenofobia e o preconceito parecem
ter aflorado por aqui. Só com informação é que vamos reverter isso”, opina a
advogada Nádia Floriani.
Chefe que agredia haitiano foi demitido após denúncia
Além de ter apanhado do chefe
de cozinha do restaurante em que trabalha, em Curitiba, Jean* afirma que
ainda foi espancado no alojamento da empresa, onde o agressor também morava.
O haitiano, de 24 anos, foi ameaçado de morte e, ainda hoje, sente medo. “Eu
estava no computador. Ele chegou em casa e já me deu um soco na cabeça. Eu
perdi os sentidos. Quando acordei, ele continuou me batendo e pegou uma faca.
Eu consegui correr para fora e voltei ao restaurante. Ele queria tirar a
minha vida”, conta o haitiano.
Perseguido
Antes mesmo de ter sido
agredido no alojamento, Jean vinha sendo perseguido pelo chefe de cozinha,
que o chamava com palavrões e de “preto”. O rapaz continua trabalhando no
restaurante, enquanto o chefe foi demitido. Ainda assim, ele pensa em mudar
de emprego. “Eu faço de tudo para segurar este trabalho, mas tenho muito
medo”, confessa.
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